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Amazônia

Óbidos, 21/09/2017 às 10:56

Naufrágio do Sobral Santos : maior tragédia fluvial da Amazônia que matou 300 pessoas completa 36 anos

 

 

Texto Gérson Severo Dantas

 

 

A hidrovia Solimões-Amazonas, cuja abrangência vai de Tabatinga(AM) a Belém(PA), é palco para o transporte de 5 milhões de passageiros mensalmente e de aproximadamente 7 mil toneladas de carga anual. Pelos rios dela, contudo, circulam verdadeiras arapucas fluviais que afundam a ciclos regulares e repetem uma história que no último dia 19, completou 36 anos envolta em mistério e impunidade. É o naufrágio do Barco Motor Sobral Santos 2, que foi a pique no porto do município de Óbidos, no Oeste do Pará, quando cumpria a linha Santarém-Manaus.

 

No acidente morreram entre 250 e 300 passageiros, mas a tragédia não bastou para evitar os riscos que até hoje correm os que se aventuram por este meio de transporte na rota entre Manaus e Belém, a mais concorrida da hidrovia.

 

A viagem final do Sobral Santos 2, um barco motor construído em 1957, começou por volta de 19 horas do dia 18 de setembro de 1981 no chamado Caiszinho de Santarém, e a dois quilômetros do porto da cidade, de onde ele partira uma hora antes autorizado pela Delegacia Fluvial de Santarém.

 

Ao longo do dia ele recebeu aproximadamente 300 toneladas de carga, 200 limitadas pela sua capacidade e mais 100 que estavam no barco motor Emerson. O excesso, contudo, não era suficiente e, ao chegar no Caiszinho, o Sobral Santos embarcou mais 100 toneladas do barco Miranda Dias, também em pane, e outros 100 passageiros, cujos nomes não constaram na relação dos 430 registrados inicialmente.

 

Na noite fatal, de Santarém o Sobral, considerado o barco mais seguro da região, por ser de ferro; confortável, pelo total de passageiros que levava e ainda possuir uma área de lazer no terceiro passadiço; e veloz, tinha motor de 600 cavalos, partiu com excesso de passageiros e de cargas rumo a cidade cujo cemitério recebeu a sepultura de estimados 200 passageiros.

 

A carga do Sobral Santos era composta por hortifrutigranjeiros produzidos na região Oeste do Pará e aproximadamente seis mil garrafas de refrigerantes e cervejas, que seriam abastecidos em Manaus. O jornalista Celivaldo Carneiro lembra que a partida do Sobral Santos era um evento porque levava para Manaus a riqueza da região e trazia o que os municípios precisavam. “Hoje tem barco de Monte Alegre, Prainha,  para Manaus. Naquela época não, os produtores traziam feijão, farinha, arroz e embarcava tudo em Santarém para abastecer Manaus”, relata.

 

O engenheiro florestal Cristovam Senna, em cuja biblioteca Boanerges Senna estão guardados jornais que contam a história da tragédia, lembra que o naufrágio causou grande comoção na cidade, onde a maioria dos habitantes conhecia ou era parente de alguém que ia naquela viagem. “A navegação melhorou, até porque não podia piorar, mas naquela época houve excesso de passageiros e de carga e isso causou o naufrágio”, diz.

 

A versão mais aceita  aponta o deslocamento da carga como causa principal do naufrágio. A carga estava mal acondicionada, grades de cerveja e refrigerantes não estavam amarradas e após a atracação no porto, com a movimentação de passageiros para a amurada, a carga fez movimento semelhante e causou o adernamento do Sobral Santos, que mergulhou nas águas barrentas do rio Amazonas em menos de cinco minutos. Estima-se que não levou 10 segundos para percorrer os 130 metros de profundidade e bater no solo do rio. “Quando ele sumiu houve um silêncio. Aquelas pessoas morreram sem poder pedir socorro, sem poder gritar”, emociona-se o comerciante Maurício Hamoy, 58, que estava no porto de Óbidos. “Só depois de uns dez minutos as vítimas começaram a emergir e gritar por socorro no meio do rio, muitas delas sobreviveram ao naufrágio, mas não resistiram a correnteza e foram arrastadas, morrendo da mesma forma”, conta, emocionado, Hamoy.

 

Os primeiros corpos das vítimas começaram a ser resgatados na manhã mesma do naufrágio.

 

Resgate difícil

 

A profundidade e a correnteza atrapalharam o resgate, que precisava ser feito por mergulhadores profissionais. Uma equipe de mergulhadores da Marinha, baseada no 4º Distrito Naval, em Belém, entrou numa corveta e chegou a Óbidos quase dois dias depois e iniciou o resgate. Escafandristas retiraram um número indeterminado de mortos, mas a maioria ficou desaparecida.

 

Oficialmente há relatos de 178 sobreviventes. O inquérito que apurou o acidente foi feito por um oficial da Delegacia de Santarém, mas o documento não pode ser encontrado lá, no 4º DN ou no 9º Distrito Naval, em Manaus. No 4º DN, o oficial de comunicação informou que o prazo para guarda desse tipo de documento é de 10 anos e não havia nada referente ao naufrágio do Sobral Santos nos arquivos do órgão militar. Sem dados oficiais, resta a versão dos sobreviventes.

 

O Sobral Santos pertencia a Empresa de Navegação Onze de Maio (Onzenave), do empresário Calil Mourão, e tinha permissão para transportar 500 passageiros e 200 toneladas de carga. Doze dias após naufragar, ele  voltou a flutuar graças ao içamento feito pelo guindaste João Pessoa e foi vendido para o empresário Isaac Hamoy que o rebatizou de Cisne Branco. Hoje ele   pertence a Empresa de Navegação AR Transporte,  e tem autorização para levar apenas 232 passageiros e 160 toneladas de carga. (A Crítica)

 

 

 

Passageiros e cargas continuam sendo transportados no mesmo ambiente

 

Um dos problemas que contribuíram para aumentar o número de mortos no Sobral Santos, o transporte de passageiros e cargas no mesmo ambiente, continua acontecendo

 

 

 

O seminário “Desafios do Transporte Fluvial e Marítimo na Amazônia”, realizado pela Universidade Federal do Pará, constatou que o principal problema deste setor é a fiscalização. Conforme dados apresentados no encontro e atribuídos a Marinha Brasileira, cinco milhões de passageiros usam mensalmente o transporte coletivo fluvial na Amazônia, fluxo coberto por 120 mil embarcações de diversas espécies e tamanho. Para fiscalizar esse universo  as  Capitanias contam com, no máximo, 300 pessoas.

 

A reportagem refez a rota Belém-Manaus, divida em três  partes, na primeira semana de setembro, e constatou algumas ações temerárias, para dizer o mínimo,  que remontam a época da tragédia do Sobral Santos e que ocorrem exatamente por falta de fiscalização.

 

Um dos problemas que contribuíram para aumentar o número de mortos no Sobral Santos, o transporte de passageiros e cargas no mesmo ambiente, continua acontecendo. Em dois trechos cobertos pela reportagem este problema ocorria.

 

No primeiro, de Belém para Manaus, a carga estava no primeiro passadiço e no porão. O segundo passadiço concentrava quase a totalidade dos passageiros, mas alguns optaram por armar as redes na parte debaixo da embarcação.

 

“Tem menos gente e não me acostumo com ar condicionado”, disse o agricultor Renato da Silva explicando porque optou por deixar o ambiente climatizado do segundo passadiço. Ninguém da tripulação, contudo, o advertiu para os perigos de ir naquele pavimento em caso de acidente.

 

O deslocamento de carga, que não estava amarrada, em direção a amurada foi a causa do adernamento do Sobral Santos. Situação semelhante foi vista no segundo barco usado pela reportagem no trecho entre Santarém e Óbidos.

 

Neste barco havia dois carros no primeiro passadiço ao lado de outros tipos de cargas, estes sim estavam amarrados. Os dois carros, um batido, viriam para Manaus. Os tripulantes disseram que é comum o transporte de veículos na embarcação, mas reconheceram que não há como amarrá-los adequadamente. A amarração é feita com uma corda de nylon.

 

Outra ação temerária testemunhada pela reportagem foi a entrada de carga durante a viagem. No trecho entre Breves e Gurupá uma embarcação pequena foi amarrada à maior e passou toda a sua carga de cabos de vassouras. Foi quase uma hora as duas embarcações viajando juntas. (A Crítica)

 

 

 

Testemunha ocular da tragédia sente-se assombrado pelas almas dos mortos

 

 

 

O comerciante Maurício Hamoy é um homem religioso e, por isso, durante os primeiros meses após o naufrágio do Sobral Santos rezava todos os dias pelas vítimas, muitas delas sem qualquer parentesco na região. “Tinha muita gente do Nordeste, eram mais de 100 que iam para Manaus e depois  trabalhar em Boa Vista (RR)”, conta.

 

Hamoy foi testemunha ocular do naufrágio, estava na balsa sobre a qual tombou a embarcação antes de desaparecer nas águas barrentas do Amazonas. “Foi tudo rápido, só deu tempo de eu subir um lance de escada até o trapiche e quando olhei para trás o barco havia desaparecido”, diz.

 

A tragédia toda, na visão de Hamoy, não durou mais que cinco minutos, mas que pareceram uma eternidade suficiente para ele ver detalhes tão pequenos, mas significativos e que fazem a diferença entre a vida e a morte. “Vi três ou quatro homens que pularam do barco para a balsa, se salvaram sem sequer molhar a barra da calça”, surpreende-se. “Agora vi também uma família que entrou no barco para morrer, era a mãe e dois filhos. Entraram e cinco minutos depois estavam mortos”, conta emocionado, lembrando que em Óbidos entraram poucos passageiros.

 

Hamoy não sabe, não tem certeza, mas evidências apontam que tratava-se da família Moura Alves, formada por Maria do Socorro Machado Moura, de 24 anos, a filha Marcela Moura Alves, 4 anos, e Marcio Moura Alves, um bebê que faria três meses cinco dias após o naufrágio. No cemitério de Óbidos, eles são os únicos que têm uma lápide tradicional na área da sepultura coletiva, aberta para receber os mais de 200 corpos resgatados no rio.

 

Ver uma tragédia como aquela numa cidade pequena como Óbidos impressionou o comerciante, que um dia deixou de rezar pelos mortos, mas acabou assombrado. “Depois de um tempo eu parei de rezar, mas eles me pediam para continuar, ouvia a voz deles pedindo a oração”, conta.

 

Hamoy ficou impressionado com estes pedidos e resolveu fazer uma consulta ao bispo de Óbidos. “Aquilo estava me incomodando, não conseguia mais dormir nos dias que não rezava para eles; fui ao bispo e ele me aconselhou a rezar antes para o meu anjo da guarda”, conta. “Só assim parou, mas aquilo ainda está na minha memória, como se fosse hoje, um drama, uma tragédia que jamais vou esquecer”, diz

 

 

 

‘A luz da vida, que é Jesus, foi à salvação’, disse Raimundo Nonato

 

 

 

O professor e comerciante Raimundo Nonato de Souza conta que uma luz o salvou da morte no naufrágio do Sobral Santos. Ele dormia no primeiro andar quando a embarcação afundou, no porto de Óbidos. Raimundinho, como é conhecido, relata que conseguiu sobreviver porque atou sua rede bem em cima do porão do barco, numa área em que na lateral não havia mercadorias, porque de ambos os lados, ficam as comportas de entrada e saída de passageiros.  A maioria dos viajantes morreu imprensada por grades de cerveja, refrigerantes e fardos de farinha.

 

Ao menos 21 parintinenses que estavam no “barco da morte”, escaparam da tragédia do fatídico 19 de setembro. E Raimundinho estava entre os sobreviventes. O professor foi o primeiro passageiro a embarcar em Santarém.” Eu assisti o começo e o final de tudo. Cheguei ao porto de Santarém por volta das 6h. “Optei em ficar no barco porque não quis ir para o hotel. Vi o carregamento de uma grande quantidade de mercadorias entre bebidas, fardos de farinha e de  arroz. Tinha produto até na área de lazer da embarcação”, afirmou. “O dono do barco ainda me ofereceu um camarote, mas recusei porque não tinha dinheiro para pagar”, acrescentou. Naquele tempo havia uma forte ligação entre  Parintins e Belém. As famílias tradicionais da cidade mandavam seus filhos estudarem no melhor colégio da capital paraense.

 

A embarcação deixou o porto das Docas às 18h, mas houve nova parada, em frente ao bar Mascotinho, ainda na orla do rio Tapajós. “Aí entrou mais caixas de verduras, legumes que foram retiradas do barco Miranda Dias, que estava quebrado”, disse. E o Sobral Santos zarpou, pontualmente às 19h para nova escala na Cidade de Óbidos, com o verdugo do casco embaixo d’ água,  no nível bem a cima do padrão da navegação.

 

Aos 62 anos, Raimundinho possui uma pequena distribuidora de bebidas no Centro de Parintins. Ele é natural de Sobral, Ceará, mais chegou ainda jovem à cidade.   Falar do Sobral ainda embarga-lhe a voz.  “Acordei com o barulho das cargas e com gritos. O barco estava virando e as mercadorias vindo ao encontro dos passageiros. Com muita dificuldade consegui abrir o alçapão da escada e fui parar, do lado de fora, em cima da caiçara do barco, porque o outro lado lateral já estava afundando”, disse. Neste instante, o professor engasgou a voz.

 

Veio às lágrimas por alguns minutos e continuou: “Estava tudo escuro.  Não sabia para onde pular. Foi nesta hora que vi uma luz. Era a luz de poste de uma rua, próximo ao cais e saltei nesta direção para dentro do trapiche de madeira”, relembrou. “E foi aquela luz, que é o caminho, a verdade e a vida, que é Jesus, que me salvou”,  acrescenta.

 

 

 

Corpos enterrados em vala comum do cemitério de Óbidos

 

O naufrágio do Sobral Santos deixou um rastro de destruição que vai muito além das 300 mortes estimadas pelas fontes mais seguras. Famílias perderam seus arrimos, outros ficaram apenas com a roupa do corpo e tiveram de contar com a solidariedade do povo e a própria cidade teve sua rotina alterada pela presença de centenas de pessoas que foram trabalhar no resgate, na perícia ou cobertura jornalística do acidente. O pior efeito, contudo, sofreram os pescadores, proibidos de “içar as velas” por quase três meses.

 

A dona de casa Antônia Vieira perdeu no acidente a filha Soledade, o genro Zeca e dois netos. Ela lembra que Soledade a ajudava com as despesas de casa mesmo depois que o marido foi transferido para uma agência bancária de Macapá. Antônia não recebeu nenhum tipo de indenização ou seguro pela morte de seus parentes. “Isso não existiu aqui, ninguém recebeu nada, nem a bagagem deles me entregaram”, afirma. Antônia conta que no dia do acidente veio da comunidade do Curuá, onde morava, só para um encontro rápido com a filha. “Era tempo apenas para uma abraço, um beijo nas crianças”, lembra.

 

O professor e comerciante Raimundo Nonato de Souza, de Parintins, diz que indenização foi uma assunto que não se tocou na época do naufrágio. Ele garante que ninguém recebeu nada pelo acidente, nem mesmo para recuperar o que perderam dentro do navio. “Nada, esse negócio é coisa para avião,  não houve nada disso”, diz.

 

Vala comum

 

A maioria dos corpos foi enterrada numa  vala comum do cemitério de Óbidos. A administração não tem um número certo de mortos sepultados no local, pois após alguns dias depois de iniciado o resgate apenas partes das vítimas chegavam para serem enterradas e não havia exames de DNA para conferir a identidade. Mesmo assim a estimativa é de que ao menos 200 corpos estão enterrados no local.

 

 

 

A voz que narrou à tragédia do naufrágio do Barco Sobral Santos

 

A imagem que não se apaga da cabeça do radialista Benedito Lopes, 59, que fez a cobertura jornalística do naufrágio do Sobral Santos, é a quantidade de sangue misturado  a uma espécie de gordura que se formou no leito do rio Amazonas, na frente do porto de Óbidos.

 

“Era gordura de gente, das pessoas que morreram. É que os homens rãs, que eram os mergulhadores contratados pelo proprietário da embarcação, iam ao fundo e furavam a barriga dos corpos para que estes não boiassem. Era uma forma de tentar esconder o número de passageiros que o barcos transportava”, afirmou Bené, relatando fatos bastante noticiados na época. “A gordura se espalhou por uma área de 500 metros de extensão no leito do rio”, completou.

 

Parintins tomou conhecimento do naufrágio do Sobral Santos nas primeiras horas da manhã. A rádio Alvorada, a única emissora da cidade,  acordou os moradores com a triste notícia e Benedito Lopes foi o enviado especial até o local do sinistro.

 

Bené seguiu de barco, ainda pela manhã, e chegou à noite a Óbidos, na companhia de uma equipe do município nomeada, pelo prefeito Raimundo Reis para socorrer os conterrâneos. “Quando cheguei, vi a quantidade de corpos enfileirada no armazém do porto. A cidade estava em comoção. Vi o desespero das famílias que choravam e outros angustiados pelos desaparecidos”, disse Benedito Lopes da Silva, que completara em 1981, 29 anos de idade.

 

De frente para o fato, o radialista passou a narrar barbaridades de como as vítimas e seus familiares foram tratados. Ele contou que os mergulhadores já não faziam mais questão de procurar sobreviventes ou de resgatar os corpos. “Só voltavam para o fundo do rio se os parentes das vítimas pagassem”, contou. Ele contou que comerciante José Pereira pagou caro aos homens rãs para que eles resgatassem sua mulher, Amélia.

 

“Ela morreu dentro do camarote, não conseguiu sair. Naquela época ele desembolsou 300 mil cruzeiros e eles foram lá e trouxeram o corpo dela. Todas as pessoas que vieram nos camarotes morreram”, acentuou. Na opinião dele houve também omissão por parte da Capitania dos Portos. “Fizeram vista grossa para muita coisa”, afirmou Benedito.

 

Além de reportar para a Rádio Alvorada Benedito Lopes narrou os acontecimentos para a BBC de Londres, a Rádio Nacional, Voz da América, Rádio Rural de Santarém, Rádio Clube de Belém, Rádios Difusora e Rio Mar, de Manaus. “Para reportar, naquela época, eu ligava de um telefone convencional, para a Embratel e a empresa ligava para a Rádio Alvorada”, narrou.

 

Ele teve acesso à lista de passageiros e contestava a versão oficial de desaparecidos e do número de pessoas que estavam na embarcação. O repórter foi ameaçado de morte pelos proprietários do Sobral Santos,  que acusavam os passageiros pelo naufrágio.  “O barco estava com excesso de carga e no porto de Óbidos mais passageiros ainda entraram no Sobral. Fui ameaçado de morte pelo seu Calil Mourão. Entreguei a lista de passageiros depois de muita pressão”, afirmou Bené, que hoje é funcionário da Prefeitura.

 

MEMÓRIA

 

O barco Chicão, foi quem conduziu os 21 parintinenses que sobreviveram ao naufrágio do Sobral Santos de volta à Ilha. No meio da viagem, por pouco o barco também não naufragou ao colidir com um banco de areia. No Chicão viajava um menino, de oito anos, que conseguiu sobreviver à tragédia. O garoto era Emerson Nakauth, que hoje está com 38 anos e dirige uma agência financeira, em Parintins. Ele não quis comentar o episódio. A mãe e o irmão dele morreram na tragédia do Sobral Santos. Em julho, deste ano, o pai Emerson, Nelson Nakauth, também morreu no naufrágio do barco Kirios II, de propriedade da própria família.

 

Futuro da navegação na região amazônica

 

 

 

A navegação nos rios da Amazônia ganhou um novo personagem e com ele vieram desafios, perigos e procedimentos tão ou mais complexos do que os existentes na época do naufrágio do barco motor Sobral Santos, há 30 anos, no porto do município de Óbidos, no Oeste do Pará, quando cumpria a linha Santarém-Manaus.

 

Trata-se das lanchas rápidas conhecidas por “a jato”.  “Elas são o futuro mesmo, mas minha preocupação é que ainda não foram estabelecidas condutas para situação de risco com a maior presença delas nos rios. O risco não está mapeado e, com isso, não há condutas preescritas para mitigá-lo”, avalia a Engenheira de Produção Nadja Vanessa Miranda Lins, estudiosa do tema navegação e construção naval na região.

 

As lanchas conquistaram um público pela rapidez com que cumprem trechos longos de navegação, principalmente a partir de Manaus ou Santarém. Entre Manaus e Parintins, por exemplo, barcos recreio levam, em média, 18 horas de viagem descendo o rio, quando a viagem é mais rápida. Já nas lanchas, subindo o rio (trecho mais demorado), o trecho é cumprido em apenas oito horas.

 

Outra vantagem  está no conforto e na qualidade dos serviços oferecidos neste tipo de embarcações. Nas lanchas os passageiros, em média 100, viajam acomodados em poltronas amplas, confortáveis, com travesseiros e em salão climatizado. O serviço de bordo é outra atração a parte pela qualidade. Na linha acompanhada pela reportagem de A CRÍTICA, no último trecho da viagem de Belém a Manaus, foi servido um lanche no meio da manhã e um almoço por volta de meio dia.

 

O serviço funciona como se fosse num avião, tripulantes passam com um carrinho, servem a comida numa bandeja e oferecem refrigerante, sucos ou água. Tudo isso já incluso no preço da passagem, R$ 150,00 de Parintins a Manaus. Além desse serviço, há um bar na popa onde há biscoitos, chocolates, refrigerantes, cervejas e sanduiches rápidos. A higiene dos banheiros também contrasta com a dos recreios e catamarãs tradicionais.

 

Para passar o tempo a lancha é dotada de 10 tvs de tela LCD plana na qual são passados filmes legendados, o que facilita o entendimento do passageiros, pois o som natural acaba abafado pelo barulho do motor. “Vamos assistindo televisão e ai o tempo passa rápido”, diz o advogado Julião de Souza, que seguia na mesma viagem da reportagem.

 

De Santarém também partem lanchas rápidas para diversos municípios do entorno, mas a diferença é que a alimentação é cobrada e o projeto da embarcação assemelha-se mais a um ônibus do que propriamente a um barco, como as lanchas que operam no Amazonas. Essas lanchas-ônibus saem de Santarém e atendem todos os municípios do baixo Amazonas paraense, como Óbidos, Oriximiná, Juruti e Porto Trombetas. No Pará ou no Amazonas, apenas um procedimento de segurança é igual, todas partem nas primeiras horas da manhã para cumprir toda a linha ainda com o dia claro. “Este é um procedimento de segurança padrão, quando têm de navegar à noite, em função da potencia dos motores, os pilotos diminuem  a velocidade e só despejam potência máxima quando o dia clareia”, conta Nadja.

 

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